quarta-feira, 1 de julho de 2009

prova 2 de sociologia III - DUrkheim

FLS0201 – Sociologia III
Professor Dr. Fernando Pinheiro

Pergunta:
1 - Segundo pesquisa divulgada pelo jornal "Folha de São Paulo" em 18 de agosto de 2006, mulheres que realizaram implante de silicone nos seios têm 73% mais chances de provocar a própria morte. Analise esse fenômeno a partir da teoria durkheiminiana do suicídio.

Resposta

Para a análise da pesquisa divulgada pelo jornal “Folha de São Paulo”, de que mulheres que realizam implante de silicone nos seios têm 73% mais chances de provocar a própria morte, com base na análise durkheiminiana sobre o fenômeno do suicídio, esboçaremos alguns dos traços marcantes de sua teoria a este respeito, para, a partir da tipificação feita pelo autor, tentar encontrar algum que dê conta de explicar o resultado da pesquisa.
Durkheim parece incomodar-se com a incapacidade das teorias que lhe precederam em explicar o suicídio, teorias que poderíamos denominar psicologizantes. Sua inovação estaria justamente em considerar o suicídio como fato social. De acordo com o seu já usual método de análise[1], o sociólogo francês começa por refutar as teorias vigentes, por exemplo: a partir de dados estatísticos, mostra que não existe uma relação entre doença mental e suicídio, tampouco entre alcoolismo e suicídio, contrariando as teorias vigentes e indo contra as pré-noções; considerando o drama individual como refração de fenômenos sociais. Refuta, ainda, a tese da imitação como característica essencial para a compreensão do social, tal como propunha Gabriel Tarde.
Novamente debruçado sobre dados estatísticos – atitude freqüente no decorrer do livro O Suicídio – o autor observa certas regularidades nas taxas de suicídio, por país ou por pertencimento a determinados subgrupos, por exemplo. Neste sentido, passa a ter como hipótese que o suicídio não se explicaria por razões idiossincráticas, mas sim por razões supraindividuais, ou seja, coletivas: “mostramos, com efeito, que existe para cada grupo social uma tendência específica ao suicídio que não é explicada nem pela constituição orgânico-psíquica dos indivíduos nem pela natureza do meio físico. Disso resulta, por eliminação, que ela deve depender necessariamente de causas sociais e constituir por si mesma um fenômeno coletivo” (DURKHEIM, 2004, p.165). Interessa-se em tratar o suicídio como fato social, verificando se este fenômeno pode ser encarado desta maneira e, portanto, se é a sociologia a ciência encarregada de explicá-lo.
“Durkheim quer mostrar até que ponto os indivíduos são determinados pela realidade coletiva. Desse ponto de vista, o fenômeno do suicídio tem excepcional interesse, já que, aparentemente, nada pode ser mais individual do que o fato de um indivíduo destruir sua própria vida” (ARON, 2008, p.476)
Deve, para tanto, definir o suicídio, fazendo-o logo na introdução: “chama-se de suicídio todo caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato, positivo ou negativo, realizado pela própria vítima e que ela sabia que provocaria tal resultado” (idem, p.14). Circunscreve assim, o suicídio, excluindo as tentativas de fazê-lo bem como a morte acidental, focando na consciência de quem faz o ato.
O passo seguinte, conforme a metodologia durkheiminiana, é verificar a possibilidade de tipificar o suicídio. Se a sociedade só existe caso haja coesão, esta se dá em função da integração (modo como os indivíduos se aproximam de seu grupo) e da regulação (papel modelador do todo sobre as paixões individuais).
Na busca das causas para que possa tipificar o suicido – seguindo o principio de sua sociologia de que um fato social deva ser explicado por uma causa social – encontra uma única causa, a quebra da relação indivíduo-sociedade, mas com quatro modalidades: oriundas do excesso e da falta de integração (altruísta e egoísta, respectivamente) e do excesso e da falta de regulação (anômico e fatalista, respectivamente).
Não entraremos em pormenores a respeito de todos os quatro tipos de suicídio discriminados por Durkheim. Entretanto, para nos encaminharmos em direção à possibilidade de algum destes tipos explicar os resultados da pesquisa publicada pelo jornal “Folha de São Paulo”, devemos ressaltar que os suicídios típicos das sociedades modernas são o egoísta e anômico, uma vez que é característica da sociedade organizada solidariedade orgânica a ausência de integração e regulação.
Parece-nos, portanto, que sobraram dois tipos de suicídios com os quais teremos que nos defrontar para explicar o resultado da pesquisa à luz da teoria durkheiminiana do suicídio. Consideraremos, assim, frente à dificuldade de correspondência empírica do suicídio egoísta e anômico, os dois como tipos ideais, de maneira que poderão nos guiar na aproximação ou afastamento perante a observação empírica.
Uma vez que o suicídio egoísta é aquele marcado pela falta de integração social do indivíduo na sociedade, marcada pelo pertencimento ou ausência em determinados grupos (como, por exemplo, o fato de pertencer a uma comunidade religiosa proteger mais do que aqueles que não pertencem), não vemos como a anulação da sociedade, a fraca integração social esteja muito adequada à explicação de mulheres com silicone se matarem 73% mais (como a estatística não dá as informações completas, consideraremos que este número é em relação à mulheres sem silicone, ou seja, mantido todos os outros fatores constantes, mulheres com silicone possuem 73% de chance a mais de cometerem suicídio do que mulheres sem silicone).
Resta, portanto, verificaremos a possibilidade do tipo anômico explicar o resultado obtido na pesquisa. O suicídio anômico ocorre quando a sociedade não oferece critérios ao indivíduo sobre o que é razoável ele querer, trata-se de um enfraquecimento do poder da sociedade sobre o indivíduo, a ausência de regras que lhe freiem o desejo.
Tal situação, descreve Durkheim, ocorre, por exemplo, em períodos de crise e prosperidade econômica. Em ambas as situações, os indivíduos que ascendem ou caem na escala social perdem e mensurabilidade daquilo que eles podem ou não fazer. Sofrem do que o sociólogo francês denomina “mal-do-infinito” (próximo ao conceito freudiano de “sentimento oceânico”, embora o fundador da psicanálise busque as causas no psiquismo e Durkheim na sociedade).
“As sociedades dominadas pela tradição atribuem a cada um um lugar fixado pelo nascimento ou pelos imperativos coletivos. Nessas sociedades, seria anormal que o indivíduo reivindicasse uma situação adaptada a seus gostos ou proporcional aos seus méritos. Nas sociedades modernas o individualismo é o princípio fundamental. Nelas os homens são e se sentem diferentes uns dos outros, e cada um quer obter tudo aquilo a que julga ter direito” (ARON, 2008, p.475)
No caso particular da pesquisa das mulheres com silicone seria interessante analisá-lo sob a ótica do tipo anômico de suicídio, em que mulheres, insatisfeitas com seu físico, sofrem do “mal-de-infinito”, desejando ser algo que não são, uma busca desmesurada visando algo inalcançável, com a velocidade da mudança nos padrões de beleza em das sociedades modernas. Poderíamos refutar essa idéia ao dizer que há uma tendência para diminuir o grau de regulação, de excessivo, para um grau normal, conforme a hereditariedade da condição econômica se torne mais fraca:
“Mas é apenas uma questão de grau. Pois sempre subsistirá uma hereditariedade, a de nossos dons naturais. A inteligência, o gosto, (...) a coragem, a habilidade manual são forças que cada um de nós recebe ao nascer (...), como o nobre, antigamente, recebia seu título e sua função. Portanto, será preciso uma disciplina moral para fazer com que aqueles que a natureza favoreceu menos aceitem a mínima situação que devem ao acaso de seu nascimento” (idem, p.319)

Ora, muito embora Durkheim não tenha expressamente falado de características físicas, elas podem muito bem ser compreendidas dentro da análise precedente: o desgosto com o corpo e a maneira pela qual buscaram uma modificação pode ser um traço característico de um estado de regulamentação anômica, em que as mulheres que implantaram o silicone não sofreram regulamentação suficiente do corpo social para que conseguissem suportar a ausência de uma característica física desejada[2]. Há, portanto, evidências, oriundas do confronto entre a teoria durkheiminiana do suicídio e os dados apresentados pela pesquisa, de que estas mulheres que fizeram implantes de silicone, incapacitadas de distinguirem o alcançável do inalcançável, seguida por diversas frustrações, tem a possibilidade de serem levadas ao suicídio[3].

Pergunta
2- “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, e este pagou-lhe na mesma moeda.” (Voltaire). Interprete a frase, com base na sociologia da religião de Durkheim.

Resposta
Realizaremos a interpretação da frase de Voltaire, com base na sociologia da religião de Durkheim, de maneira análoga a como fizemos na primeira questão, isto é, esboçaremos as bases teóricas de seu trabalho dedicado ao tema – As formas elementares da vida religiosa – para que, com as devidas contribuições do autor à ciência da religião e à teoria sociológica do conhecimento, analisemos a frase de Voltaire.
Deste modo, seguiremos, em nossa explanação, o método durkheiminiano para tratar dos fatos sociais. Em primeiro lugar, o afastamento das pré –noções seguidas da definição do fenômeno religioso. A crítica que o sociólogo francês faz das teorias que lhe precederam trata de dividi-las em dois grandes grupos: o primeiro refere-se ao grupo de teorias que buscavam a explicação do fenômeno religioso por meio da presença de seres supra-sensíveis, como a idéia de D’us, refutada por Durkheim quando afirma que este conceito não está presente em todas as religiões (como no Jainismo e correntes do Budismo); o segundo grupo de teorias que Durkheim visa refutar diz respeito à tentativa de definir o fenômeno religioso por meio da separação entre sobrenatural e natural. Ora, tal distinção é cara ao pensamento ocidental, dotado de uma ciência positiva capaz de determinar o natural separado do sobrenatural, atribuir esse raciocínio a outros povos é uma atitude que não condiz com o pensamento destes (seria o equivalente a acepção contemporânea do termo etnocentrismo).
Define, portanto, o fenômeno religioso da seguinte maneira:
“uma religião é um sistema solidário de crenças seguintes e de práticas relativas a coisas sagradas, ou seja, separadas, proibidas; crenças e práticas que unem na mesma comunidade moral, chamada igreja, todos os que a ela aderem” (DURKHEIM, 1989, p.79)
Atentemos para os três eixos sobre os quais se estrutura a definição de religião para Durkheim:
a) Sistemas solidários de práticas (ritos) e crenças (representações, doutrinas, dogmas)
b) Relação com o sagrado: pressupõem uma separação entre sagrado e profano, entendendo o primeiro como aqueles objetos separados do domínio comum, que para serem tocados/mencionados/pensados exigem tratamento diferenciado ao das coisas profanas.
c) Igreja: pertencimento a uma comunidade de fiéis. Serve para diferenciar o tipo de agregação constitutiva do fenômeno religioso daquela comum aos freqüentadores de determinado mago, em que predomina uma relação clientelista, cujo fim se dá quando o objetivo é atingido.
Afastadas as pré-noções e definido o fenômeno religioso, Durkheim se encarrega de buscar a origem do sagrado, suas causas – contribuição mais importante deste seu trabalho, e que avança no sentido de compreender a frase de Voltaire. Para tanto, confronta-se com as teorias vigentes que visavam dar conta da explicação sobre a origem do sagrado. É a partir da refutação das teorias animistas (crença religiosa como a fé em um espírito, derivada da experiência que o homem tem no sonho, da separação entre corpo e alma) e naturistas (segundo a qual os homens adorariam forças da natureza transformadas) que passa a elaborar a sua própria.
“A exposição e a refutação destas duas teorias são bastante longas, mas há uma idéia subjacente a esta dupla crítica. Quer se adote uma interpretação animista ou naturista, termina-se, segundo Durkheim, por dissolver o objeto considerado” (ARON, 2008, p.501).
É então, em um pensamento com características marcadamente evolucionistas, que Durkheim passa a trabalhar sobre o Totemismo Australiano, religião que considera a mais simples, por ser a mais antiga ainda existente. Investigar esta religião específica é tentar apreender a origem do sagrado.
Acredita que é a partir da simbolização, que compartilhada por todos os homens que se identificam com determinado signo, que surge o clã, portanto, a própria sociedade. Ora, se A se identifica com determinado signo, e B também o faz, então há uma relação entre A e B, que por se identificarem, por exemplo, com o mesmo animal, passam a formar um clã. Deste modo, a religião surge como uma espécie de meta-instituição, fundadora de todas as demais, fundadora da própria sociedade.
Esta é, justamente, a grande inovação de Durkheim neste livro: vê a religião como algo real – caso contrário não seria tão profunda e não teria perdurado por tanto tempo: acredita na existência de algo de real sobre o qual o fenômeno religioso surge.
Parece-nos, agora, que estamos prontos para, conforme terminarmos a explicação durkheiminiana sobre a origem do sagrado e a sua sociologia do conhecimento, interpretarmos a frase de Voltaire.
A primeira parte da frase de Voltaire (“Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”) apresenta-se fora do âmbito explicativo de Durkheim. Se, de fato, temos como uma de suas regras metodológicas a busca de causas sociais para explicar fatos sociais, não vemos a possibilidade da ciência como a sociologia, conforme as concepções do sociólogo francês, explicar este fato. Já a segunda parte da frase (“e Este pagou-lhe na mesma moeda”), está em diálogo direto com a sociologia da religião proposta Formas Elementares da Vida Religiosa
Ora, é a sociedade o ente divinizado, tornado sagrado pelo próprio coletivo, estando de acordo com a segunda parte da frase de Voltaire caso pensemos nesta transformação das representações individuais em coletivas, sociais. Trata a representação individual que cada membro da horda faz (horda como uma ficção em que predomina o pensamento individual) como o fato constitutivo da simbolização e da instituição do clã (da sociedade, em que existe o pensamento coletivo). Encontra a origem do sagrado no social, atribuindo à simbolização papel fundamental na sociologia.
A sociedade cria o sentimento de divino no homem justamente por ser superior aos indivíduos:
“De fato, uma divindade é, antes de mais nada, um ser representado pelo homem sob certos aspectos como superior a si mesmo, e do qual ele crê depender. (...) o fiel se crê sempre obrigado a certas maneiras de agir, que lhe são impostas pela natureza do princípio sagrado com o qual se sente em comunhão. Ora, a sociedade provoca também em nós a sensação de uma perpétua dependência (...) impondo-nos todos os tipos de privações, trabalhos e sacrifícios sem os quais a vida social se tornaria impossível” (DURKHEIM, 1989, p.295)”
É neste processo de passagem das representações individuais para as coletivas, e conseqüente fundação do social que está a chave para compreender a frase de Voltaire. Leiamos o próprio Durkheim:
“As representações que as exprimem em cada um de nós têm intensidade que os estados de consciência puramente primitivos não poderiam atingir: porque elas são feitas das inúmeras representações individuais que serviram para formar cada uma delas” (ídem, p.262).
Trata-se de uma transubstancialização do coletivo por um símbolo, posto num plano transcendente. Se deveria existir algo de real no sagrado não é, propriamente, a crença do fiel, mas a sociedade. Ou seja, o conteúdo real do sagrado é a própria sociedade. D’us como a transfiguração do social: “é a noção de sagrado, dada ao espírito humano, que transfigura a sociedade como pode transfigurar qualquer outra realidade” (ARON, 2008, p.520).


Referências:

ARON, Raymon. Etapas do Pensamento Sociológico. Martins Fontes: São Paulo, 2008.
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da Vida Religiosa. Paulus: São Paulo, 1989.
________________. O Suicídio. Martins Fontes: São Paulo, 2004.
[1] Dizemos já usual pois o método havia sido aplicado em Da divisão do Trabalho Social e teorizado em Regras do Método sociológico.
[2] Provavelmente, em um estado de regulação normal, as mulheres que fizeram tal operação nem sequer se sentiriam insatisfeitas com seu físico.
[3] Interessante observar a maneira clara como se evidencia a questão, aplicada a um caso prático, de que as atitudes individuais seriam reflexos do social.

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